quinta-feira, 9 de junho de 2022

Instagram: um meio para compartilhar conhecimento literário


INSTAGRAM: UM MEIO PARA COMPARTILHAR CONHECIMENTO LITERÁRIO[1]

 

Estefânia Alves Konrad[2]

 

Resumo: No artigo reconheço que o Instagram é uma ferramenta para aprender e ensinar literatura infantil. Ilustro o tema com iniciativas de três perfis que disponibilizam, nesta rede social, conteúdo digital educativo. Ao compor o “estado do conhecimento”, percebi que, até 2020, não há publicações que indicam o uso do aplicativo para o compartilhamento de conhecimento. No caso específico da literatura infantil, até o momento, não há estudos registrados. O foco deste estudo, portanto, foi apresentar, descrever e refletir sobre profissionais que tem na educação literária seu objeto de trabalho e utilizam o Instagram para propagar seus conhecimentos.

Palavras-chave: Instagram; ferramenta; compartilhar; literatura infantil.

Introdução

Professores(as), em 2020, impossibilitados de exercer demandas presencialmente, devido ao isolamento social instaurado pela Covid-19, procuraram ferramentas online para garantir o acesso dos(as) educandos(as) ao conhecimento literário e encontraram no Instagram uma possibilidade. Diante dessa evidência, busquei, através da pesquisa, apresentar e descrever conteúdos e métodos empregados por três perfis públicos que compartilham saberes sobre literatura infantil. Em comum, a sugestão de títulos, autores, textos, obras e leituras e o desejo de formar ou qualificar leitores e mediadores.

Uma das primeiras motivações para a investigação é o fato de eu ser Pedagoga, estudiosa dos aspectos que envolvem a literatura infantil e por decorrência do afastamento físico, em 2020, começar a criar, produzir e compartilhar conteúdos digitais. Realizando esta atividade de forma intuitiva, senti a necessidade de estudar teoricamente e qualificar esta ação.  

A pesquisa justifica-se por entender que diferenciadas estratégias no ensino-aprendizagem são fundamentais, especialmente quando recursos como as plataformas digitais estão presentes no cotidiano das pessoas. Outro argumento plausível para a pertinência é o ineditismo, revelado pela inexistência de pesquisas específicas sobre profissionais que utilizam o Instagram para compartilhar conhecimentos acerca da literatura infantil. Além de poucos estudos próximos ao tema.

Ao observar a literatura, deparei-me com Kratochvil (2009, p. 225). Para a autora, “[...] precisamos rever a nossa postura diante das tecnologias e dos usos que temos feito delas”. No que diz respeito a tecnologias e sua influência, considera que elas permeiam as relações sociais de várias formas e em várias medidas e, em suas palavras, “havemos de tomar uma postura que nos auxilie a trabalhar com essa realidade que vem sendo tecida, fio a fio, dia a dia, reconhecendo que não há como separar a instância social da instância tecnológica”. Por fim, considera que “precisamos tornar-nos sensíveis às suas repercussões nas práticas de leitura” (KRATOCHVIL, 2009, p. 213).

Contribuindo com esta perspectiva, Belmiro (2021), contemporiza que a literatura e a leitura literária vêm tendo diferentes oportunidades de propagação nas últimas décadas e, uma delas é no formato online. Nas palavras da autora:

 

A mídia digital vem oferecendo enormes contribuições para o processo de criação, propondo novas leituras e nos obrigando a reconhecer as características próprias desse meio, como a real interferência do som na indução da interpretação, a profundidade de campo e o ponto de vista. Esses são alguns dos elementos que distanciam a mídia digital da produção da mídia impressa, e que singularizam seus processos de interação leitora (BELMIRO, 2021, p. 65).

 

            Acessar conteúdos digitais destinados a ensinar e aprender é ação recorrente entre usuários que navegam pelo Instagram. A partir de março 2020, essas buscas ampliarem-se. De acordo com DAU (2020), o aumento da utilização das redes sociais, no Brasil, foi de 40% desde o início da pandemia por Covid-19. Segundo D’ANGELO (2021), em cada dois mil usuários, 84% acessam, pelo menos uma vez por dia, o Instagram e 55% indicam consumir o que é indicado por influenciadores digitais. Considerando a expansão desta rede social, especialistas das mais diversas áreas viram a possibilidade de disseminar seus conhecimentos, compartilhando conteúdos sobre temas relevantes, não sendo diferente com os profissionais da educação e a literatura infantil.

Assim, neste artigo, faço uma breve contextualização da rede social em questão, estabeleço relação entre o Instagram e a educação, disserto sobre o termo alfabetização literária e como aliá-la aos multiletramentos no contexto das redes sociais, revelo a história da pesquisa, apresento e reflito teoricamente sobre os dados dos perfis que compõem este estudo e por fim, trago as considerações finais, com base nas análises, descrições e reflexões feitas ao longo da pesquisa.  

Metodologia

A pesquisa aqui apresentada – objetivos e resultados – se insere no campo qualitativo, visto que “responde a questões muito particulares''. Esta abordagem “se ocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado” e “aprofunda-se no mundo dos significados das ações e relações humanas, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas”, de acordo com Minayo (2001, p. 22).

Observar e selecionar os perfis a serem investigados foram às tarefas iniciais, modalidade de pesquisa conhecida como “estudo de caso”. Segundo Ventura (2007, p. 384), pode ser definida “como uma metodologia ou como a escolha de um objeto de estudo definido pelo interesse em casos individuais”. Após, elaborei e encaminhei aos selecionados – três profissionais que em comum utilizam a rede para compartilhar conteúdo literário – um questionário composto por doze perguntas abertas. Na transcrição, priorizei a fidedignidade aos dados que, de acordo com Rosa (2017), significa “sermos capazes de expressar o que revelam”. Antagônico a isso, mascarar ou amenizar as verdades, comprometeria a credibilidade da investigação.

Uma das atitudes de pesquisa foi ler publicações em busca de ampliar o repertório acerca do tema. Assim, entrei em contato com o “estado do conhecimento” que, segundo Morosini (2015, p. 102), “é identificação, registro, categorização que levem à reflexão e síntese sobre a produção científica de uma determinada área, em um determinado espaço de tempo”. Decidi por dois sites: Google Acadêmico e Scielo, digitando, na barra de pesquisa, as palavras “Instagram e educação” e “redes sociais e leitura literária”, no Google acadêmico e “redes sociais e educação”, “Instagram” e “Instagram e a educação”, no Scielo.

De posse desse grupo de informações, os demais procedimentos foram: contato com os digitais influencer, aplicação do questionário, leitura e organização das respostas, análise e escrita das conclusões.

A plataforma Instagram: um breve resumo

O Instagram é uma rede social criada em 2010. Através dela, é possível compartilhar fotos e vídeos. Para acessá-la é preciso fazer o download do aplicativo no Smartphone. Disponibiliza para os usuários recursos como: filtros e legendas nas postagens individuais do feed, incluir mais de uma foto ou vídeo em uma única postagem, mensagens privadas, opção de marcar hashtags pesquisáveis e stories que ficam disponíveis por 24 horas. Estas ações, segundo Carpenter, Morrison, Craft e Lee (2020, p. 02) “permitem que os indivíduos se comuniquem com outros usuários de maneiras que variam em privacidade e formalidade”.

A plataforma, de acordo com Carpenter, Morrison, Craft e Lee (2020), é a segunda mídia social mais usada nos Estados Unidos e a quinta mais usada no mundo. No Brasil, segundo o ranking que fez o levantamento das dez redes sociais mais usadas no ano de 2021, apontou o Instagram na quarta posição com mais de 110 milhões de usuários, o que representa quase metade da população brasileira.

Trazendo para o aspecto do compartilhamento de conteúdo digital voltado à literatura, Duarte (2020) indica que o aplicativo está entre as duas redes sociais mais citadas para esta finalidade. No entanto, como constatado por esta pesquisa e indicado por Carpenter, Morrison, Craft e Lee (2020, p. 01) “recebeu atenção limitada dos pesquisadores da educação até o momento”. Por que isso aconteceria?

Para Silva e Serafim (2016, p. 72), “os meios digitais têm um enorme potencial para o ensino, mas é difícil realizar esse potencial se eles são considerados apenas tecnologias e não formas de cultura e comunicação”. Cabe aos educadores desmistificar essa visão distorcida e começar a utilizar este recurso, afinal, como colocado por Silva e Serafim (2016, p. 94) “[...] é inegável que a presença de tecnologias digitais da informação e da comunicação propicia aos professores e alunos uma reformulação de suas relações de aprendizagem”.

Instagram e a Educação

Para entender sobre o compartilhamento dos conhecimentos acerca da leitura literária no Instagram, busquei na literatura pertinente, escritos (artigos, dissertações e teses) que, de alguma forma e por algum aspecto, abordassem a temática. Ao selecionar escritas, compus o estado do conhecimento e me deparei com a inexistência, até o momento, de pesquisas específicas sobre o mesmo tema. A esse respeito, Carpenter, Morrison, Craft e Lee (2020, p. 4) afirmam que “as atividades online dos educadores continuam sendo um campo pouco estudado e, no caso particular do Instagram, permanece inexplorado em pesquisas publicadas”. Entre as parcas abordagens encontradas, há referência às redes sociais de forma geral e apontando-as como recursos que os professores poderiam utilizar em práticas docentes. O mais próximo que encontrei foram estudos que entrelaçam o Instagram, a educação ou as redes sociais com a leitura.

Mesmo não sendo um tema tão explorado por pesquisadores, ainda assim, a educação, de acordo com Vermelho, Velho e Bertoncello (2015) é a segunda área que mais produz conhecimento neste viés, ficando atrás apenas da área de comunicação. De acordo com estes autores, “[...] pode-se dizer, com relativa segurança, que um tema emergente da atualidade é o das redes sociais. Na história das ciências sociais e humanas, o conceito de rede social surgiu na primeira metade do século XX.” (p. 865).

Apesar de, atualmente, já estarmos habituados a atribuir a expressão “redes sociais” para aplicativos digitais, usar este termo, isoladamente, expande o conceito, pois é possível que elas existam tanto fora quanto dentro do contexto digital. Segundo Vermelho, Velho e Bertoncello (2015, p. 866), “[...] o que hoje as áreas do conhecimento reconhecem sob a denominação de rede social é uma construção linguística e cultural, apoiada sobre práticas observacionais que foram se constituindo ao longo da história humana”. Com isso, existem pesquisadores que preferem afunilar, fazendo com que seja possível encontrarmos diferentes formas de nos referirmos a elas.

Duarte (2020) utiliza o termo Redes Sociais Online (RSO), já Vermelho, Velho, Bonkovoski e Pirola (2014) usam Redes Sociais Digitais (RSD), ou ainda “[...] o uso de termos como mídia social, mídia digital, entre outros, para expressar o fenômeno em questão” (VERMELHO, VELHO, BONKOVOSKI, PIROLA, 2014, p. 183), por exemplo. Como no caso desta pesquisa, trata-se especificamente do Instagram, ele mesmo já é o complemento, pois está inserido no contexto digital.

As redes sociais, segundo Pereira, Júnior e Silva (2019) são um dos maiores canais de comunicação, alcançando diferentes gerações e tendo abrangência maior com os jovens. Sendo assim, de acordo com os autores, utilizá-lo como ferramenta no processo de aquisição do conhecimento se faz pertinente. Indo ao encontro desta afirmação, Vermelho, Velho e Bertoncello (2015, p. 874) consideram que as redes sociais “[...] mesmo com todo o seu teor e viés econômico, criadas num momento em que a sociedade está altamente verticalizada, passaram a proporcionar aos seus usuários experiências de relações sociais horizontalizadas”.

Nesta perspectiva, uma das consequências é a expansão da transmissão dos conhecimentos. Pereira, Júnior e Silva (2019) atentam para a preocupação de quais informações estão sendo repassadas e afirmam que fontes seguras geram proporção significativa para que o conhecimento crie popularização e interação na rede social em questão.

Alfabetização literária e os multiletramentos

Indicado na Base Nacional Comum Curricular, é papel do(a) professor(a) propiciar experiências que permitam às crianças aproximação com a literatura. Portanto, formar leitores é um compromisso docente, principalmente nos anos iniciais da vida e da escolarização.

Penso que compete aos educadores(as) a responsabilidade de propor para os(as) educandos(as) a alfabetização literária. Rosa (2015) conceitua o termo como sendo “um processo de apresentação do mundo da literatura a todos”. Além disso, elenca a importância da “elaboração e produção de um processo saboroso, articulado e intencional de apresentação do livro literário ao leitor iniciante” (ROSA, 2016). Para que a alfabetização literária aconteça, a pesquisadora aponta como imprescindível, “um futuro leitor, um mediador e um livro” (ROSA, 2015). No entanto, como garantir essa oferta de forma intencional usando o Instagram?

De acordo com Almeida e Cerrigatto (2016), torna-se desafiador educar para o novo contexto de leitura, linguagens e produção da informação. Segundo as autoras, passamos por fases históricas da linguagem (oral e escrita) e, atualmente, estamos imersos no que elas chamam de terceira era: a linguagem digital, capaz de englobar e criar novos contextos. Essas mudanças geram novos perfis leitores e, consequentemente, na reflexão e adaptação dos profissionais da educação frente a isso.

O uso das redes sociais como fonte para novos conhecimentos já era uma realidade, antes mesmo do cenário pandêmico. O que mudou foi o olhar atento dos(as) professores(as) que entenderam a necessidade de utilizar estas ferramentas como veículo para alcançar o público do outro lado da tela.


A biblioteca não é fonte exclusiva de saber e informação, nem a escola o é. Um simples “meme” na Internet, um vídeo de um canal de um blogueiro no YouTube, um artigo ou notícia escrito em um blog independente de jornalismo são fontes de informação mais acessadas e consumidas pelas novas gerações. (ALMEIDA e CERRIGATTO, 2016, p. 205).

Isso não minimiza a importância do livro impresso, da biblioteca e escola. Amplia as possibilidades de acesso. O indicado por Rosa (2015) sobre o necessário para que a alfabetização literária continue acontecendo no modo digital é que o futuro leitor, o mediador e o livro conversam entre si “através” da tela, deixando de ser um processo vertical e se tornando horizontal, uma vez que, segundo Almeida e Cerrigato (2016), qualquer pessoa pode informar e ser informada na rede.

O que gera sinal de alerta para quem consome e se alimenta de conhecimento, assim como em outros meios de comunicação, é saber se a fonte é confiável e se quem está compartilhando tem qualificação para tal. Em relação aos produtores de conteúdos da web, Almeida e Cerrigato (2016, p. 213) afirmam que “com o avanço das novas tecnologias, há um aumento na produção, que passa a ser constante, de mensagens textuais, sonoras e visuais em nossas vidas.” Com o contexto pandêmico, profissionais das mais diversas áreas apostaram nesta proposta, entre eles, as três pessoas pesquisadas por mim. Neste sentido, Almeida e Cerrigato (2016) consideram que

 

[...] nesse cenário, cabe tanto à escola como a outras instituições formadoras fomentar as novas alfabetizações, valorizando as habilidades de leitura do leitor contemporâneo. Valorizar as leituras ligadas por meio de hiperlinks, não-sequencial, que exigem habilidades para entender o significado não só da palavra impressa, mas do som, do vídeo, diante da tela do computador, do tablete, do celular, podem ser atividades a serem desenvolvidas. A interatividade proporcionada pelos novos meios, os diversos aplicativos e softwares que estimulam a produção de diversos tipos de textos, a gravação de vídeos, o trabalho “transmídia” – de contar a mesma história ou disseminar as mesmas informações em diversos veículos de comunicação, linguagens e plataformas – podem ser meios de produção de conhecimento, assim como meios para se expressar. (ALMEIDA e CERRIGATTO, 2016, p. 227).

Um aspecto levantado por Almeida e Cerrigato (2016) como importante a ser ressaltado é sobre a produção de conteúdos não ter o dever de estar relacionada somente ao domínio técnico, mas também ao domínio de linguagem e ambos atrelados à produção ética. A realidade é a formação de pessoas “multiliteradas”, que de acordo com Almeida e Cerrigato (2016, p.226), são indivíduos “com múltiplas habilidades de leitura e escrita” sendo “flexíve[is] e compreende[ndo] que a alfabetização é dinâmica e não estática, e se modificam diante das transformações sociais, culturais e tecnológicas”. Logo, ser digital influencer e se propor a utilizar o Instagram como veículo para propagação de conhecimento é estar atento às múltiplas maneiras de comunicar com quem irá acessar o conteúdo digital. 

 

Resultados

História da pesquisa

A pesquisa iniciou em 18 de julho de 2021. Entrei em contato com dois dos três perfis analisados. O modo de comunicação escolhido foi via direct – recurso de mensagem privada disponível no Instagram. Ali, fiz o convite para participar da pesquisa e encaminhei o questionário com as seguintes perguntas: Como começastes a tua relação com a literatura? Por que decidiu criar conteúdo digital para compartilhar teus conhecimentos? Há quanto tempo produz este tipo de conteúdo?  Quais eram os objetivos iniciais com as postagens? Eles se alteraram com o tempo?  Quais são as metas em longo prazo? O que funciona e o que não funciona? Quais métodos já sabias e quais precisou aprender para conseguir utilizar a plataforma na qual faz as postagens? Com que frequência realiza os posts? Acredita que isso interfere ou beneficia para alcançar os objetivos? Tem público alvo? Sabes estatisticamente qual público atinge? 

As primeiras evidências foram apresentadas no XXIII Encontro de Pós-Graduação (ENPÓS) que integrou a sétima edição da Semana Integrada de Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão (SIIEPE) da Universidade Federal de Pelotas. O resumo expandido e a apresentação (através de vídeo) – elementos solicitados para inscrição - foram submetidos em agosto de 2021 e o evento, na modalidade remota e on-line, ocorreu de 18 a 22 de outubro de 2021.  

Após a apresentação, a pesquisa foi por mim retomada em março de 2022. Primeiro, conhecendo outros referenciais teóricos. Ao acompanhar os compartilhamentos de uma terceira pessoa, senti o desejo de inseri-la no estudo e assim fiz. Encaminhei o questionário a ela em 20 de março e, no dia 28 de março de 2022, obtive retorno.

Por que os três perfis foram escolhidos?

Durante minha graduação em Pedagogia tive a oportunidade de integrar o Programa de Educação Tutorial – PET Educação. Foi nesse ambiente que dei início aos estudos voltados à Literatura e, mais especificamente dediquei-me à literatura infantil e à leitura literária. Com a vivência neste grupo de ensino, pesquisa e extensão, tive inúmeras possibilidades de aprimorar meus conhecimentos, seja em eventos, trabalhos desenvolvidos, além de conhecer estudiosos e aficionados pelo tema. Neste contexto, conheci e Aliana Cardoso, Cibele Fernandes e Leonardo Capra, as três pessoas que fazem parte desta pesquisa.

Leonardo Capra, na época, ainda estudante do curso de Pedagogia, também fez parte do PET Educação e já se destacava pela postura profissional que assumia. Felizmente, dividimos momentos de aprendizagem, fazendo com que eu o conhecesse e admirasse seu trabalho. Durante a pandemia por Covid-19, Léo – como é conhecido – começou a compartilhar indicações literárias em seu perfil pessoal do Instagram, e por reconhecer a importância da atitude, o escolhi como um dos perfis. Cibele Fernandes e Aliana Cardoso integram um grupo, do qual também faço parte, no Whatsapp nomeado “Literatura para crianças”, criado em 26 de março de 2020 e coordenado por Cristina Maria Rosa. Atualmente, é composto por 55 participantes[3] entre elas(e): professoras, graduandas, pós-graduandas, mestras, doutoras em educação, familiares e responsáveis de crianças. Em comum, apreciadores da literatura infantil. Neste ambiente virtual, Cibele e Aliana divulgaram suas páginas da rede social aqui explorada, nas quais realizam publicações que instigam o público a gostarem de literatura infantil. Após conferir o trabalho delas, decidi convidá-las a participar do estudo. A seguir, apresento os três perfis com informações extraídas das respostas[4] aos questionários.


Leonardo: Pedagogo, Professor na rede pública municipal mestrando e Digital Influencer

A relação de Leonardo com a literatura começou quando ele estava no ensino fundamental, mas não por intermédio da escola e sim por gibis repassados por seus primos. Ele ressalta que na infância, brincava com sua prima de jornalistas e selecionavam reportagens de revistas, liam silenciosamente e depois encenavam as reportagens em voz alta. Momentos dos quais eles utilizavam da leitura para brincar.

O primeiro livro que despertou seu encantamento foi “Por um simples pedaço de cerâmica” de Linda Sue Park, durante a trajetória escolar, uma professora de literatura o incentivou a ler clássicos brasileiros e conforme as leituras, foi desenvolvendo seus próprios critérios.

Ao cursar a escola técnica, voluntariamente ficou responsável pela biblioteca, e com esta experiência conheceu diferentes gêneros e leitores literários. Na graduação em pedagogia a relação se fortificou quando conheceu a professora Cristina Maria Rosa, que lhe apresentou títulos, autores, gêneros, maneiras de ler, estratégias de leitura e espaços literários, fazendo com que ampliasse seu repertório literário e consequentemente seu acervo.

Atualmente, como professor da rede municipal, investe mensalmente na compra de obras literárias, lê para seus alunos e afirma que a literatura faz parte dos seus dias, tanto direta quanto indiretamente.

Decidiu criar conteúdo digital para compartilhar seus conhecimentos e firmar seu compromisso como leitor. Nas palavras dele:

[...] Primeiro comigo mesmo, a fim de criar constância na leitura literária e depois para compartilhar. Importante salientar que primeiro o compromisso foi comigo, pois ao contrário de muitos influenciadores digitais eu consumo o produto que recomendo. O artefato cultural livro é lido, analisado, resenhado, fotografado/filmado e só depois é compartilhado com “seguidores". Quando tu ofereces um produto tu és responsável por ele, por isso não é qualquer coisa que serve, é necessário estudo, método, estratégia e compromisso com quem te assiste. (CAPRA, 2021).

Por consequência das postagens, afirma que os livros indicados geram reações diversas e é de responsabilidade de quem posta o conteúdo digital, lidar com os seguidores e orientá-los da forma adequada.

Indo ao encontro do colocado, Burlamaque e Barth (2015, p. 71) quando dissertam sobre a relação entre a as redes sociais e o ensino, indicam que o professor precisa se posicionar “e utilizar o ambiente digital como um aliado no seu papel como formador de leitores”, sendo “imprescindível fazer das redes sociais aliadas na consolidação de círculos de leituras e práticas leitoras”. Assumir este compromisso é uma responsabilidade e está a cargo do professor mediar os desdobramentos oriundos dos conteúdos digitais compartilhados.

A trajetória de criação, produção e compartilhamento de conteúdo literário teve início no dia 26 de julho de 2020 e a primeira obra indicada foi “A história mais triste do mundo” de Mário Corso. Os posts, que variam entre fotos da capa do livro ou vídeos (sempre legendados para serem acessíveis a todos) são publicados aos domingos às 13 horas, com a indicação de um livro. Complementando o conteúdo, ele atribui à descrição da postagem, uma resenha opinativa, alguns critérios específicos e frases marcantes de cada obra. Além disso, pelo menos duas vezes durante a semana, instiga seus seguidores com enquetes interativas nos Stories, sobre o livro que será indicado no domingo seguinte.

As redes sociais em geral, mas principalmente o Instagram, utiliza dos multiletramentos, que segundo Borges (2020, p. 3) é “não apenas da leitura do texto verbal, mas também da leitura de imagem, da leitura do som, em ordem definida pelo próprio leitor”.

Os objetivos iniciais do Leonardo com o perfil eram:

Ler mais e melhor, oferecer literatura de qualidade para pessoas que não tem conhecimento da área, compartilhar emoções e dores advindos dos livros, qualificar literariamente crianças, professores e adultos que estão na rede social Instagram, debater literatura. (CAPRA, 2021).

No tocante a alteração dos objetivos com passar do tempo, ele afirma que:

 

Na verdade eles se ampliaram devido às necessidades que meu público demandava. Por isso, por exemplo, tive de explorar gêneros e temas que inicialmente não tinha pensado. [...] Importante dizer que a ampliação dos objetivos foi natural, quase imperceptível, em decorrência das trocas literárias intensas que acontecem online. (CAPRA, 2021).

Além dos objetivos específicos e subjetivos, os educadores, de modo geral, segundo Carpenter, Morrison, Craft e Lee (2020, p. 9) “utilizaram o Instagram para adquirir e compartilhar conhecimento, bem como para trocar apoio emocional e desenvolver a comunidade”. Estas motivações geram benefícios para comunidade, mas também entre os profissionais da educação.

As metas em longo prazo deste produtor de conteúdo digital são: conhecer mais autores, leitores, opiniões, leituras e pontos de vista, como também manter e ampliar a qualidade da forma como entregar às postagens para as pessoas que o acompanham.

Uma das perguntas do questionário era sobre as ações que funcionam e que não funcionam, - ou seja, alcance dos objetivos - na divulgação dos conteúdos digitais através desta plataforma, e de acordo com a experiência do Leonardo, interatividade nos Stories, instigar a curiosidade, oferecer partes do que estará por vir, fazer questionamentos para os seguidores funcionam. E o que não funciona é deixar de ser pontual.

[...] O próprio Instagram te boicota se tu não és pontual. O que é boicote do Instagram? Eu explico: ele tira o engajamento da tua rede social quando tu postas em outros horários fora da rotina, ou quando tu não postas. Ou seja, ele não entrega a postagem para os seguidores, assim quem aguarda teu conteúdo acaba não recebendo. Por isso é importante cumprir com o compromisso firmado, palavra dada tem que ser palavra cumprida. (CAPRA, 2021).

Sobre os métodos que sabia e quais precisou aprender para conseguir fazer as postagens, declarou que sabia ler, falar e conversar e precisou aprender a postar, decorar, fotografar, gravar, editar, além de escrever resenhas mais diretas e instigantes. Complementou, salientando que “muitas das coisas que citei nesta resposta dão bastante trabalho, então ser mais paciente também foi um método que tive de aprender” (CAPRA, 2021).

Segundo Carpenter, Morrison, Craft e Lee (2020, p. 13), existem desafios no uso das mídias sociais pelos educadores, um deles é o conteúdo, de acordo com estes autores “a natureza visual da plataforma pode colocar muita ênfase no conteúdo que é esteticamente agradável em vez de educacionalmente benéfico.”. Outros desafios[5] são: o discurso, a composição de rede ou comunidade e os desafios de identidade.

[...] tenho em mente que este meu compromisso não pode demandar um tempo maior do que eu possa oferecer. Sou professor da rede municipal e mestrando e por isso as coisas precisam ser bastante organizadas. Tenho atingido boa parte dos meus objetivos e como tudo flui, vou adaptando as coisas conforme as necessidades dos leitores que me assistem, da rede social e as minhas também. (CAPRA, 2021).

No que se refere ao público alvo, ele afirma que são os seres humanos, pois o conteúdo é diversificado, contemplando literatura infantil e juvenil, para crianças ou então para professores e familiares que buscam por indicações literárias, então, pelo menos duas vezes ao mês estes dois gêneros são prioridades. O público em grande parte é adulto, então, nas palavras de Leonardo “os outros dois domingos do mês, faço publicações com literatura adulta” (CAPRA, 2021).

Até o momento da devolutiva do questionário, 52 postagens foram feitas e este digital influencer, acredita que pelo menos um livro chamou a atenção de cada seguidor. A esse respeito, Pereira, Júnior e Silva (2019, p. 120) afirmam que “nos dias atuais vemos que o uso das TICD (Tecnologias da Informação e Comunicação Digitais) são ferramentas formadoras e modificadoras de opinião, sendo assim um excelente caminho para o ensino e aprendizado”.

Estatisticamente falando, os homens são maioria nesse perfil, sendo eles 56,5% e as mulheres (43,5%) interagem mais. Além disso, 46,2% são jovens de 18 a 24 anos, 39% têm entre 25 e 34 anos. São seguidores do Brasil, Estados Unidos, Argentina, Hong Kong e Austrália. Os brasileiros predominam com 98,9%. Dentro do Brasil, destaque para o Rio Grande do Sul, com 40,2% pelotenses.

Estes dados garantem o proposto por Duarte (2020, p.42) sobre “uma das principais motivações para estes leitores darem uso às RSO: o da divulgação da leitura, com a intenção de fazer com que chegasse a mais pessoas”. Os conhecimentos sobre leitura literária, disseminados pelo @capradelivros – nome de perfil do Leonardo no Instagram -, são capazes de chegar a lugares que se não fosse o perfil na plataforma em questão, talvez, não seria possível.

Cibele: Formada em Teatro, Contadora de histórias, Professora, Cria/produz/compartilha conteúdos digitais

Cibele começou a ter contato com a literatura depois de adulta, quando foi trabalhar como vendedora em uma livraria. Ela comenta que quando era criança, não havia estímulos externos sobre ler, ou talvez houvesse, mas não chegavam até ela. 

Sou de uma família pobre, nunca me faltou nada, mas com certeza, o acesso a esses materiais não era prioridade. O acesso aos livros acontecia através da escola, naquele sistema de ir à biblioteca durante a semana, mas conforme fui crescendo e as leituras não eram mais “obrigatórias" e os livros não me despertavam desejo. Meu encontro de verdade com a literatura, aconteceu quando fui trabalhar na livraria, no setor infantojuvenil e foi lá que compreendi o mundo incrível que existia, e amava observar as ilustrações, os textos, entender quem eram escritores e as até as pessoas que iam até a livraria me interessavam. (FERNANDES, 2021)

Consequentemente se tornou contadora de histórias profissionalmente e o compartilhamento de conteúdo digital deste trabalho teve início em 2015, quando junto com um amigo, decidiram fazer vídeos contando histórias e postá-los no YouTube. A ideia da dupla era divulgação e retorno para o que desenvolvem presencialmente. Os objetivos iniciais das postagens eram:


[...] conversar com público que se interessasse pelo assunto - literatura infantil e contação de histórias. Nosso foco migrou de plataforma e foi para Instagram e posso dizer que não tenho números significativos por lá, mas que a plataforma serve como um grande ambiente de divulgação, esse era o objetivo desde o início e continua o mesmo. Quando pensamos em metas, preciso destacar que não trabalhamos exclusivamente com contação, e que essa é uma realidade da grande maioria dos contadores e eu preciso informar sobre isso. Eu e Cadu somos formados em Teatro, atuamos com professores, fazemos lives para escolas, eventos, editores. Inclusive, atualmente, estamos em cidades diferentes, e eu gerencio de forma mais efetiva o ‘insta’. Posso destacar que os conteúdos postados como dicas de livros, poesias, brincadeiras tem um retorno mais ativo, e vídeos curtos e divertidos garantem retorno. As lives de histórias são incríveis para conhecermos autores, ilustradores e futuros clientes. Devo pontuar aqui, que nunca trabalhamos exclusivamente com contação, sempre tivemos alinhados com outros jobs com retorno financeiro, para que pudéssemos continuar a fazer o que amamos. (FERNANDES, 2021).

 

Complementando o relato da Cibele, Vermelho, Velho, Bonkovoski, Pirola (2014) ao refletirem sobre as redes sociais digitais, consideram que as novas tecnologias


[...] permitiram a criação de meios de comunicação mais interativos, liberando os indivíduos das limitações de espaço e tempo, tornando a comunicação mais flexível. Com apenas um clique, qualquer pessoa pode acessar uma informação específica e manter contato com pessoas que estão distantes. (VERMELHO, VELHO, BONKOVOSKI, PIROLA, 2014, p. 182).

Relativamente sobre os métodos que já sabia usar e quais precisou aprender para conseguir utilizar o Instagram e compartilhar os conteúdos, com que frequência realiza as postagens e se acredita que isso interfere ou beneficia de alguma maneira o alcance dos objetivos, Cibele afirma que


O mundo virtual exige muito foco e alimentação contínua para que se mantenha, e disso nós já sabíamos, tentamos de início nos alinhar com essa demanda, mas confesso que não é algo natural para nós. Já fiz cursos, vejo vídeos sobre como postar que horas, qual o melhor conteúdo. Mas trabalhamos de forma orgânica, não sistemática e isso funciona melhor para nós. Os dois últimos meses foram mais conturbados, logo não mantemos uma frequência. Mas anterior a isso, estava trabalhando com publicação de dicas de livros, reels e vídeos. A proposta é manter três publicações por semana + uma live de histórias e storys. (FERNANDES, 2021).

Em relação ao compartilhamento de conteúdos, somado a atração que precisa gerar em quem irá acessá-lo, Vermelho, Velho, Bonkovoski, Pirola (2014, p. 182) afirmam que este cenário coloca um desafio “para os profissionais da comunicação que precisam não só proporcionar experiências empolgantes para o público, mas também buscar a transformação da sociedade.” Sendo preciso alinhar a qualidade do conteúdo com a imagem visual do compartilhado.

Resgatando, o colocado por ela, sobre os objetivos iniciais e as habilidades que precisou desenvolver ao longo do processo de compartilhamento de seus conhecimentos na plataforma Instagram, associa-se ao compreendido por Carpenter, Morrison, Craft e Lee (2020) sobre o uso deste aplicativo, atribuindo dois conceitos principais, sendo eles: espaços de afinidade e empreendedorismo docente. Espaços de afinidades no sentido de usufruir como também compartilhar conteúdos com outros educadores e o empreendedorismo, como forma de divulgação do trabalho com fins lucrativos, mesmo sabendo que o retorno financeiro não é uma certeza.

O público alvo do perfil @ele.fanta.historias – nome de perfil de Cibele no Instagram - são as escolas, que investem e contratam a contação de histórias, como também os pais das crianças. Dentro desse público, Cibele destaca as mulheres.


Mulheres, mães que estão ativas nas redes e veem nosso trabalho como estímulo para os pequenos. Já fiz algumas pesquisas, conversando com famílias para compreender melhor qual a demanda que eles tinham em relação à literatura ou quais as contribuições do nosso trabalho. (FERNANDES, 2021)

Para Nascimento (2013) existe o questionamento “a literatura resiste às mudanças pelas quais a sociedade tem passado?” e afirma que está a cargo dos estudiosos e amantes da leitura literária se preocupam com o espaço que a literatura precisa ter na atualidade, bem como, disseminá-la. Unindo esta reflexão, ao descrito por Burlamaque e Barth (2015), sobre o posicionamento dos educadores no ambiente digital, reiteram que é preciso utilizar as redes sociais, neste caso o Instagram, como aliado na formação de leitores.

Aliana: Pedagoga, Mãe e Digital Influencer  

Aliana relata que não foi uma criança leitora e atribui este fato a falta de acesso. Na adolescência e vida adulta, lia por obrigação (vestibular, faculdade, trabalho) e pouco antes de se tornar mãe, passou a ler por prazer. A literatura destinada às infâncias entrou na vida dela, quando atuava como professora na educação básica, pois adorava incluir histórias em suas práticas docentes. Ler passou a ser uma atividade prazerosa quando depois da maternidade, realizando leituras para seu filho, desde bebê.

Sobre o porquê decidiu criar conteúdo digital e compartilhar os conhecimentos acerca da leitura literária, argumenta que passou a escrever para as crianças e criou o projeto de literatura para os pequenos, pois tem noção da potencialidade da literatura para a formação dos seres humanos. Não defende a leitura como instrumento, mas compreende que:


As histórias, os livros e tudo o que eles proporcionam, entrega às crianças um sem fim de possibilidades de ser e estar no mundo, de entender a si e aos outros, de significar, ressignificar, pensar, destruir, construir, agir. E os adultos precisam também pensar sobre isso. Decidi, então, que mais do que falar sobre a literatura que eu escrevo, meu conteúdo também problematizaria o uso e as potencialidades da literatura infantil contemporânea. (CARDOSO, 2022).

No que tange às redes sociais e seus pesquisadores, Vermelho, Velho e Bertoncello (2015, p. 874) garantem que “a necessidade surge, portanto, da experiência do sujeito com o real, para suprir uma falta ou ampliar uma capacidade”.

O conteúdo digital no Instagram vem sendo compartilhado por Aliana desde agosto de 2020. As metas iniciais das postagens e a longo prazo seguiram as mesmas, sendo elas:


[...] possibilitar a reflexão sobre a literatura para as infâncias e suas potencialidades; promover obras cujas temáticas/composição se alinham à literatura que eu produzo, ou seja, que possibilita o pensamento para a desconstrução do mundo como ele é e a construção de um mundo melhor para todos nós; divulgar editoras alinhadas com a literatura que eu acredito e produzo e compartilhar meus textos e livros. (CARDOSO, 2022).

Com a declaração destes objetivos específicos, remeto-me ao colocado por Nascimento (2013, p. 204) “Ao contrário do que muitos possam ingenuamente pensar, a leitura literária não é uma simples forma de distração que nos torna alheios ao mundo real. Seu alcance vai muito além do nível de entretenimento”, a garantia de atingir as potencialidades desta prática, é possível com as instruções de quem tem propriedade para abordar sobre o assunto, sendo este, o caso desta digital influencer.


Acredito que, quando o conteúdo chega até as pessoas, ele atende aos objetivos a que me proponho com o trabalho (tendo como base os feedbacks que recebo). A maior dificuldade está em fazê-lo chegar. Procuro diversificar a forma do conteúdo; organizar as postagens para que tenham coerência e frequência; caprichar nas performances, ou seja, dançar a música que o Instagram toca. Contudo percebo que o assunto não “vende” tanto quanto é a sua importância. (CARDOSO, 2022).

Refletindo sobre este trecho retirado de uma das respostas de Aliana no questionário, entendo que um ponto deve ser analisado: para quem chega às publicações? Como mencionado anteriormente, existem as hash tags pesquisáveis, e são a partir delas que as publicações chegam para pessoas que não estão seguindo o perfil que fez a postagem. No entanto, a temática precisa ser algo que faça parte da busca, caso contrário, o conteúdo não alcançará quem não tem interesse pelo tema. Ou seja, terá acesso, quem previamente se interessa pelo que o perfil se propõe a compartilhar. Levando isso em consideração, Messias e Júnior (2017) afirmam que


[...] redes sociais possibilitam novas formas de compartilhamento e socialização da leitura e que esse movimento desencadeia ações de mediação de informação literária, presume-se relevante investigar como as redes sociais interferem na produção, visibilidade e consumo dos artefatos culturais. Embora seja uma discussão relevante no âmbito das ciências sociais aplicadas, o fenômeno carece de investigações que possam dimensionar os reais impactos que as redes sociais provocam nas relações estabelecidas entre autores, leitores e entre os mediadores de leitura. (MESSIAS e JÚNIOR, 2017, p. 1).

No tocante aos métodos que ela já sabia e quais teve que aprender para conseguir utilizar a plataforma para divulgar seus conhecimentos, Aliana destaca que “fora escrever, tive que aprender tudo (e sigo aprendendo). Desde a elaboração de card’s, gravação e edição de vídeos, me acostumar com lives, com a exposição na tela. Tudo foi e é muito novo.” (CARDOSO, 2022).

As publicações de conteúdos são feitas diariamente de formas variadas, usufruindo de todas as possibilidades que a plataforma dispõe: cards no feed, vídeos curtos, vídeos mais longos, vídeos com conteúdo sério, vídeos para descontrair, presença nos stories. Aliana acredita que isso beneficia significativamente no alcance, pois quem já a acompanha sabe que os conteúdos são diários.

Apropriar-se de diferentes formas para expor o conhecimento literário é necessário, pois de acordo com Velho, Bonkovoski, Pirola (2014), é fato que houve mudanças consideráveis na comunicação ao utilizarmos os recursos disponíveis pelas redes sociais. A esse respeito, Theveno (2007 apud VERMELHO, VELHO, BONKOVOSKI, PIROLA, 2014, p. 185) afirma que os recursos estão sendo usados “[...] para o compartilhamento de opiniões, percepções, experiência e perspectivas, em mensagens que utilizam texto, imagens, áudio e vídeo”.

Em relação ao público alvo, o @escrevendopedros – nome de perfil de Aliana no Instagram - destina-se prioritariamente às famílias e profissionais que trabalham com crianças, estatisticamente, cerca de 80% são pessoas entre 24 e 44 anos. Vermelho, Velho, Bonkovoski, Pirola (2014) afirmam sobre o uso das redes sociais ter se tornado sinônimo de informação e comunicação e a partir deste entendimento rompe-se barreiras e se alcança diferentes públicos.

Considerações Finais

A preocupação dos perfis – @capradelivros, @escrevendopedros e @ele.fante.historias  – para garantir a presença da literatura infantil na vida das famílias, e por consequência, das crianças, através do Instagram, é pertinente e necessária. A plataforma oferece atualidade, diversidade e agilidade no compartilhamento de conteúdos digitais, além de ser acessível, pois alcança a maioria dos brasileiros.

Faz-se necessário salientar que o estudo não tem a intenção de trazer novos usuários para a plataforma. Desejo, sim, fazer com que as pessoas que já a utilizam, a vejam, como uma ferramenta viável para compartilhar e adquirir conhecimento literário.

Considero inovador indicar e compartilhar conhecimentos literários através do Instagram, pois, tanto quem produz quanto quem consome, está expandindo os saberes sobre a literatura e (res)significando os benefícios da prática de leitura. Penso ainda, que estes perfis estudados são fonte confiável e diversificada para informações sobre gêneros literários, obras de qualidade, temas inovadores e autores menos conhecidos, propiciando assim, também, maior interesse sobre o assunto.

 

Referências

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[1] Artigo apresentado ao Curso de Especialização em Educação – Área de Concentração: Educação, como requisito parcial à obtenção do título de Especialista em Educação – Estudo de Pesquisa: Estudos de Leitura na Escola, Alfabetização Literária e Formação de Professores Leitores. Orientadora: Profa. Dra. Cristina Maria Rosa.

[2] Graduada em Pedagogia; Acadêmica do Curso de Especialização em Educação – Área de Concentração: Educação, da Faculdade de Educação/Universidade Federal de Pelotas. E-mail: estefaniakonrad@hotmail.com.

[3] Informações sobre a quantidade de participantes (52 mulheres e 3 homens) verificada em 3.04.2022 – 20h48min.

[4] Questionários com perguntas e respostas na integra, disponível em: <https://efadamoderna.blogspot.com /2021/07/pesquisa-sobre-disseminacao-da.html> Acesso em 21 maio 2022.

[5] De acordo com Carpenter, Morrison, Craft e Lee (2020), no discurso, “as plataformas de mídia social oferecem não apenas espaços para compartilhar e adquirir recursos didáticos, mas também espaços para discussões.” (p. 3); Na Composição de rede ou comunidade, as “afinidades compartilhadas com outros usuários servem como motivadores [...], mas os educadores dificilmente colherão todos os benefícios [...] se restringirem apenas às interações com indivíduos que são mais parecidos com eles.” (p. 3) e nos desafios de identidade, “as mídias sociais criam oportunidades de expressão e construção de identidade, mas estas são afetadas pela hegemonia dos ideais existentes.” (p. 4).


Observação: Esta versão do artigo (Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Educação) foi encaminhada a banca e posterior a defesa foram feitas sugestões e correções. Após as mudanças, a versão final será encaminhada a banca e posteriormente registrada na instituição. 


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